Estamos emagrecendo uma geração. Mas, no futuro, ela estará mais saudável ou apenas mais leve?
Porque a sarcopenia pode se tornar uma das grandes doenças do futuro.
Dr. Vitor DallaNutrologia e Clínica Médica · CRM ES 12829 · RQE 9930
Durante décadas, a medicina travou uma batalha contra o excesso de peso. E, pela primeira vez, temos ferramentas farmacológicas capazes de produzir reduções de peso que, até poucos anos atrás, eram difíceis de imaginar sem a cirurgia bariátrica.
Liraglutida, Semaglutida, Tirzepatida e outras terapias baseadas no eixo das incretinas mudaram definitivamente o tratamento da obesidade e isso é uma excelente notícia. O problema começa quando confundimos perder peso com necessariamente ganhar saúde. Minha preocupação não é com o uso dessas medicações. Elas representam um dos maiores avanços recentes no tratamento da obesidade e, quando corretamente indicadas, podem mudar a trajetória de saúde de um paciente.
Mas, o que acontecerá se utilizarmos medicamentos extremamente eficientes para reduzir peso sem modificar aquilo que levou o indivíduo à obesidade? Sem exercício, sem treinamento de força, sem alimentação adequada, sem ingestão proteica suficiente, sem sono adequado, sem educação nutricional, sem construção de novos hábitos, nós podemos estar diante de um paradoxo no mínimo curioso, porém potencialmente perigoso.
Uma população progressivamente mais leve na balança, mas não necessariamente mais saudável e forte biologicamente. A balança sozinha não sabe o que você perdeu. Quando alguém diz: “Perdi 20 quilos.” A pergunta médica deveria ser: 20 quilos de quê?
Durante qualquer processo significativo de emagrecimento, a redução de peso não ocorre exclusivamente às custas de gordura, como também as custas de perda de massa livre de gordura, e isso não surgiu com as badaladas “canetas emagrecedoras”, é um fenômeno conhecido do processo de emagrecimento. Agora, a questão é que medicamentos modernos conseguem produzir perdas de peso muito maiores e relativamente rápidas, por isso, preservar o tecido muscular passa a ter uma importância ainda maior.
Veja os dados do estudo STEP 1, por exemplo, a Semaglutida 2,4 mg promoveu redução expressiva da gordura corporal e da gordura visceral. Entretanto, na análise de composição corporal, a massa magra absoluta também diminuiu em aproximadamente 9,7%. É importante acrescentar que a composição corporal global melhorou, afinal proporcionalmente, a massa magra passou a representar uma parcela maior do peso corporal porque a redução de gordura foi ainda maior.
Vejamos os dados da Tirzepatida, em uma subanálise do estudo SURMOUNT-1 publicada em 2025, aproximadamente 75% do peso perdido correspondeu à gordura e 25% à massa magra. Novamente, houve importante melhora da composição corporal, mas também redução absoluta de massa magra.
Revisões recentes discutem justamente esse ponto, o fato de que terapias baseadas em GLP-1 produzem redução predominantemente de gordura e melhoram a composição corporal, porém a perda concomitante de tecido magro é suficientemente relevante para justificar atenção clínica, sobretudo em indivíduos mais velhos ou vulneráveis.
Então, devemos nos perguntar, “Como fazer um paciente perder grande quantidade de gordura preservando o máximo possível de músculo, força e funcionalidade?”
Porque músculo não é apenas estética e sim um órgão de longevidade. Durante muito tempo, falar em massa muscular parecia assunto restrito a academias, fisiculturismo ou performance esportiva, e essa visão está completamente ultrapassada. O músculo esquelético participa da locomoção, do equilíbrio, da utilização de glicose, do metabolismo energético e da independência funcional de qualquer indivíduo. Preservar músculo significa preservar a capacidade de levantar-se de uma cadeira, carregar compras, subir uma escada, caminhar, evitar quedas e continuar independente com o passar das décadas.
E é por isso mesmo que a definição moderna de sarcopenia vai muito além de simplesmente “ter pouco músculo”. O consenso europeu EWGSOP2 coloca a redução da força muscular no centro do diagnóstico. A baixa força sugere sarcopenia provável, enquanto a redução da quantidade ou qualidade muscular confirma o diagnóstico, e a presença adicional de baixo desempenho físico caracteriza doença grave.
Isso traz uma mudança de paradigma extremamente importante, não basta pesar menos, precisamos continuar capazes e independentes. Um indivíduo pode melhorar seu IMC e simultaneamente piorar sua reserva funcional, pode caber em uma roupa menor e ter menos força, pode ter uma imagem corporal aparentemente melhor e estar metabolicamente e funcionalmente menos preparado para o envelhecimento.
“É aqui que surge uma das minhas maiores preocupações com a forma como parte da sociedade está utilizando os medicamentos para obesidade. O problema não são as canetas, é acreditar que elas substituem o tratamento. Existe uma diferença enorme entre utilizar medicamento para tratar obesidade e utilizar o medicamento para substituir hábitos de vida”.

Obesidade é uma doença crônica, complexa e multifatorial e a farmacoterapia faz parte do tratamento. Mas ela não deveria eliminar a necessidade de movimento, de treinamento de força, de alimentação adequada, sono, ingestão proteica suficiente e acompanhamento médico.
O medicamento pode reduzir drasticamente a fome, e é exatamente aí que aparece outro desafio. Se uma pessoa passa a consumir muito menos alimento, mas não existe planejamento nutricional, ela pode simplesmente passar a consumir menos de tudo, menos calorias, menos proteína, menos vitaminas e minerais, menos nutrientes importantes para manutenção da massa muscular. Agora adicione a isso ausência de musculação e um grande déficit energético, e pronto, teremos um ambiente biologicamente pouco favorável à preservação de massa muscular.
E ainda existe outro problema, o temido efeito sanfona pode cobrar uma espécie de conta muscular. Há uma segunda hipótese que merece muita atenção, o paciente que perde muito peso utilizando a medicação e não modifica substancialmente seus hábitos, ao interromper o tratamento irá acabar recuperando seu peso anterior. No seguimento do STEP 1, após a retirada da semaglutida, participantes recuperaram uma parcela substancial do peso previamente perdido, mostrando novamente a natureza crônica da obesidade e a dificuldade de manutenção após a suspensão farmacológica. Isso não significa que todo paciente recuperará peso nem que a medicação precise obrigatoriamente ser utilizada indefinidamente por todas as pessoas. Significa que retirar o medicamento sem construir estratégias de manutenção pode ser um problema.
E existe uma questão adicional ainda sendo investigada, qual será o efeito de múltiplos ciclos de perda e recuperação de peso sobre a composição corporal ao longo de décadas? Se parte do peso perdido é massa magra e o peso recuperado não recompõe proporcionalmente a mesma quantidade de músculo, teoricamente poderíamos caminhar progressivamente para uma composição corporal pior.
Sarcopenia: uma possível epidemia silenciosa!
A população está envelhecendo, e a obesidade permanece extremamente prevalente, segundo a Organização Mundial da Saúde, sua prevalência mundial mais que dobrou entre 1990 e 2022. Ao mesmo tempo, milhões de pessoas passarão a ter acesso a tratamentos farmacológicos cada vez mais potentes para perda de peso. Temos, portanto, três fenômenos acontecendo simultaneamente, envelhecimento populacional, alta prevalência de obesidade e emagrecimentos farmacológicos cada vez maiores.
É por isso que considero plausível que a preservação muscular se torne um dos grandes desafios da medicina nas próximas décadas. Talvez estejamos entrando em uma era em que não bastará perguntar quanto o paciente pesa. Teremos que perguntar, quanto ele consegue levantar? Qual é sua força? Quanto músculo possui? Como está sua funcionalidade? Quanto dessa perda de peso foi realmente gordura?
E o que Alzheimer tem a ver com músculo?
Aqui a discussão fica ainda mais interessante, durante muito tempo tratamos cérebro e músculo como estruturas quase independentes. Hoje sabemos que essa divisão é simplista, músculo é um tecido metabolicamente ativo e participa de uma complexa comunicação sistêmica por meio de moléculas sinalizadoras, incluindo as chamadas miocinas.
Além disso, atividade física, resistência à insulina, inflamação, função vascular, força e capacidade funcional estão profundamente interligadas. E estudos observacionais vêm encontrando uma associação consistente entre sarcopenia e comprometimento cognitivo. Uma meta-análise publicada em 2024 encontrou associação significativa entre sarcopenia, comprometimento cognitivo leve, doença de Alzheimer e outras formas de demência. Os próprios autores ressaltam, entretanto, que são necessários mais estudos longitudinais para esclarecer causalidade e direção dessa relação.
Atualmente não podemos afirmar que perder músculo causa Alzheimer, a ciência atualmente não permite essa conclusão. Mas, também não podemos ignorar que saúde muscular e saúde cerebral parecem caminhar juntas.
Uma revisão sistemática e meta-análise mais recente também encontrou associação entre sarcopenia, inclusive sarcopenia provável, e comprometimento cognitivo. E uma meta- análise específica publicada em 2025 mostrou que indivíduos com doença de Alzheimer apresentam menor massa magra, maior frequência de sarcopenia e pior função muscular quando comparados a indivíduos sem demência. Outra análise publicada em 2025 estimou prevalência de sarcopenia de aproximadamente 31% em pacientes com Alzheimer leve nos estudos avaliados.
Novamente, importante lembrar que associação não significa causalidade, mas existe uma mensagem clínica simples, envelhecer preservando músculo provavelmente é muito diferente de simplesmente envelhecer pesando menos. Precisamos parar de tratar músculo como um efeito colateral estético do emagrecimento. Se existe algo que essa nova era da medicina da obesidade precisa nos ensinar é que o tratamento não termina quando a balança diminui.
Na realidade, talvez seja exatamente nesse momento que outra parte do trabalho começa. O paciente que utiliza Semaglutida, Tirzepatida ou medicamentos semelhantes deveria receber uma estratégia que considere também, treinamento resistido e progressivo, ingestão proteica individualizada, distribuição adequada dessa proteína ao longo do dia, energia suficiente para evitar restrições desnecessariamente agressivas, avaliação periódica da composição corporal quando clinicamente indicada, acompanhamento da força e da funcionalidade, sono e recuperação, correção de deficiências nutricionais quando presentes e estratégia de manutenção do peso e dos hábitos no longo prazo.
E é nesse contexto que suplementação pode ter utilidade, não como substituta de comida, treino ou acompanhamento médico, e sim como ferramenta. Proteína suplementar, por exemplo, pode ser especialmente útil quando a supressão do apetite dificulta atingir a necessidade proteica exclusivamente através da alimentação.
A creatina também merece destaque. Meta-análises mostram que a associação entre creatina e treinamento resistido pode aumentar os ganhos de massa magra e força em adultos mais velhos em comparação ao treinamento isolado. Mas existe uma palavra nessa frase que não pode ser ignorada, treinamento. Suplementar creatina e permanecer sedentário não reproduz os benefícios observados nos estudos em que suplementação foi associada ao estímulo muscular.
O suplemento complementa uma estratégia, ele não a cria. A medicina da obesidade precisa entrar na era da “qualidade do emagrecimento”. Porque perder 20 quilos com preservação de massa muscular, melhora de força e construção de novos hábitos é completamente diferente de perder os mesmos 20 quilos com sedentarismo, ingestão proteica insuficiente e redução importante de tecido muscular.
“Minha tese é simples, o futuro do emagrecimento não pode ser apenas pesar menos, não sou contra as canetas emagrecedoras, muito pelo contrário. Acredito que estamos vivendo uma revolução no tratamento da obesidade. Esses medicamentos podem reduzir peso, melhorar fatores de risco metabólicos e permitir que pacientes que lutaram durante décadas contra a obesidade finalmente consigam resultados clínicos relevantes”.
O erro seria transformar uma ferramenta extraordinária em uma solução isolada, a caneta pode tratar uma parte extremamente importante da doença, mas ela não consegue fazer musculação pelo paciente, não consegue escolher sua proteína, não consegue construir sua rotina, não consegue dormir por ele, não consegue desenvolver força, não consegue criar hábitos e não consegue preparar seu organismo para envelhecer.
Isso continua dependendo de uma estratégia muito maior. Por isso, talvez uma das grandes discussões médicas dos próximos anos deixe de ser simplesmente “como fazer as pessoas emagrecerem?” Nós já estamos ficando extraordinariamente bons nisso. A pergunta passará a ser, “Como fazer as pessoas emagrecerem sem ficarem biologicamente mais frágeis?”
E talvez essa seja uma das questões mais importantes da medicina da longevidade, porque o objetivo nunca deveria ser criar uma geração simplesmente mais magra, o objetivo deveria ser criar uma geração mais saudável, metabolicamente melhor, fisicamente capaz, forte e independente por mais tempo. Se utilizarmos medicamentos modernos associados a treinamento de força, nutrição adequada, proteína suficiente, suplementação quando indicada, sono, acompanhamento e mudança real de comportamento, podemos estar diante de uma oportunidade histórica de melhorar a saúde da população.
Se utilizarmos apenas a balança como objetivo, poderemos descobrir no futuro que estamos comemorando uma vitória incompleta.
O peso corporal importa, a gordura corporal importa, mas músculo também é saúde. E talvez preservar músculos seja uma das estratégias mais importantes para garantir que viver mais também signifique viver melhor.
Referências
- Wilding JPH et al. — STEP 1: Once-Weekly Semaglutide in Adults with Overweight or Obesity. New England Journal of Medicine, 2021
- Wilding JPH et al. — Impact of Semaglutide on Body Composition in Adults With Overweight or Obesity: Exploratory Analysis of STEP 1 — Journal of the Endocrine Society, 2021
- Look M et al. — Body composition changes during weight reduction with tirzepatide in the SURMOUNT-1 study. Diabetes, Obesity and Metabolism, 2025
- Pantazopoulos D et al. — GLP-1 receptor agonists and sarcopenia: Weight loss at a cost? — Diabetes Research and Clinical Practice, 2025
- Sawicka-Gutaj N et al. — GLP-1 agonists and changes in body mass composition: a systematic review and meta-analysis. International Journal of Obesity, 2026
- Cruz-Jentoft AJ et al. — Sarcopenia: revised European consensus on definition and diagnosis — EWGSOP2. Age and Ageing — 2019
- Wilding JPH et al. — Weight regain and cardiometabolic effects after withdrawal of semaglutide: STEP 1 trial extension. Diabetes, Obesity and Metabolism, 2022
- Amini N et al. — Meta-analysis on the interrelationship between sarcopenia and mild cognitive impairment, Alzheimer's disease and other forms of dementia. 2024 — Journal of Cachexia, Sarcopenia and Muscle
- Nazareth CCG et al. — Differences in lean mass and sarcopenia between individuals with Alzheimer's disease and healthy controls. 2025 — Journal of Alzheimer’s Disease
- Devries MC, Phillips SM. — Creatine supplementation during resistance training in older adults: a meta-analysis — Medicine & Science in Sports & Exercise, 2014